Fico sempre a pensar quando me começo a vestir, que sapatos é que vou calçar. É, nos sapatos que, me reequilibro todos os dias. Porque, com eles, e enquanto me vou tornando mais mulher, consigo resgatar os direitos exclusivos sobre aquilo em que me vou tornando. Penso, o que seria de mim, sem sapatos. Com os sapatos, consigo fazer corresponder a minha mude, divertida e extrovertida, a uma imagem necessariamente minha aliada, premiada por algum formalismo que me acompanha tantas vezes profissionalmente.
Esta minha relação com os sapatos tornou se fácil, dependente e única. Acho que dei-lhes vida e deixei-os surpreenderem me. Muitos deles ficam bem de noite num charme de vestido, como tão bem de dia numa provocação de os juntar a um jeans desbotado e uma camisa branca. Precisam do acaso da roupa para se manifestarem, dependem das idas e regressos, do meu humor e das minhas angustias, do que é tão cosmopolita e urbano. São os meus actores, mas nenhum se arvora em personagem.
Como lhes dei vida própria, sinto que se desafiam, por instinto de sobrevivência. Lidero assim, uma seita de sapatos, vindos “ das melhores proveniências possíveis”,ou seja, de variados lugares e assumem a forma e a alma de toda a minha forma de estar. Não lhes consigo aplicar a lei das incompatibilidades, posso saltar das mules para as sandálias, dos ténis para as havaianas e daqueles que já nascem intemporais para todos os climas temperados de sol, todos eles são vividos e calçados com a pureza da primeira vez que entraram na minha vida.
A questão é que com o tempo vou me aperfeiçoando, e tenho este prazer inconfundível, em me embrenhar num labirinto de estilos, sem pressa de definir balizas ou excluir alternativas. Esta brincadeira, que já se tornou num vicio, vai tornando forma a medida do desejo, seguindo os desenhos daquilo que eu era, fazendo com que eu reapareça no tempo, voltando a reescrever aquilo em que me vou tornando. Com os sapatos, estranhamente, percebo como faz sentido ser mulher e ir ficando madura, ir deixando o olhar que tinha quando não percebia nada.
O maior dos meus contrapontos é que também adoro andar descalça, nunca procurando medir ou pontuar o que mais mexe comigo, mas escolhendo momentos e situações em que claramente, o não ter sapatos também me define. Mas, é nos sapatos, que mais em aventuro, assumindo amores e desamores. E com eles, encanto sempre, mantendo a distancia e o segredo, nos passos de quem aprendeu a abraçar a vida, com calma e alguma serenidade. Também, mas mais, um compasso de quem tem sempre a maturação como uma exigência própria.