Hoje acordei livre…simplesmente livre. Tenho a vida toda dentro de mim e penso que durante muito tempo não me senti assim. Tive vários momentos de dores, de desequilíbrios, de ansiedades, de desesperos e de inseguranças. Como uma vontade que começa a ganhar vida sinto me a caminhar e experimento uma perturbadora estranheza. As minhas vontades eram vítimas da crítica popular, eram fracas, sem espirito próprio. Havia sempre uma oposição moral, uma incompreensão, um julgar sem perceber, um olhar mais duro. As minhas manifestações do querer apareciam em cena banalizadas pelo quotidiano, desordenadas, distorcidas. No fundo de mim, nasceu um acto de amor, que arrancou qualquer superficialidade, e as expôs no espelho em que me vejo e revejo a cada dia, no desvairo do sentido pleno do meu existir. O meu ser actual, incorpora a dimensão humana de coisas mais reais, comuns, com a certeza de que muita coisa nunca mais vai ser a mesma.
Já não sei, não consigo suportar o artificialismo da felicidade mentirosa e irreal que por tantos cantos me rodeia. As pessoas sempre tão bem arranjadas, vestidas de salto alto e fatos feitos a medida, embora dolorosamente perturbadas. Meros robôs autómatos que se limitam a seguir a mesma estrada, a cumprir as mesmas indicações e a viver sem sentido nem alma, presos num sentido e numa alma única. Quero pousar gentilmente na vida e absorver com generosidade as histórias, as emoções, as memorias, as alegrias e dores. Quero perguntar o que sentes? O que pensas? O que vês? Tudo tem muito pouco de sentido lógico, é importante ir ao fundo dos nossos sentimentos, encontrarmos os sentimentos comuns, falarmos a linguagem na qual todos nos encontramos. Porque essa linguagem existe.
Não quero mais respostas, tenho tantas perguntas. Não quero certezas porque essas vão se alterando em outras incertezas. Quero o quotidiano, o real, o erro, o acerto e o voltar a errar. Quero o descompasso da vida. Não quero essas escolhas bonitas, cheias de elogios, essas vidas paradas no postal, ou nas fotografias das mesinhas das salas ou nas cómodas dos quartos. Quero esses momentos carregados de incertezas, mas que encerram a verdade do sentimento. Quero estar entre a diferença daquilo que é a realidade e a ficção, porque a ficção tem que fazer sentido e a verdade é apenas aquilo que é. O que eu quero é a liberdade de ser autêntica.